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Mostrando postagens de Agosto, 2012

HISTÓRIA ESTRANHA -Luís Fernando Verissimo

Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com 

sete anos de idade.

Está com quarenta, quarenta e poucos. 

De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde 

está a sua babá fazendo tricô. 

Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo.

Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá. 

Tem uma vaga lembrança daquela cena. 

Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se 

um homem e... 

O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus 

ombros e olha nos seus olhos. 

Seus olhos se enchem de lágrimas. 

Sente uma coisa no peito. 

Que coisa é a vida. 

Que coisa pior ainda é o tempo. 

Como eu era inocente. 

Como meus olhos eram limpos. 

O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. 

Apenas abraça a si mesmo, longamente. 

Depois sai caminhando, chorando, sem olhar pra trás.


O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. 

Também se reconheceu. 

E fica pensando, aborrecido: quanto eu tiver quarenta, quarenta …

VIVER NÃO TEM REMÉDIO.

Para tudo tem remédio. Quem, na infância, não ouviu essa frase da boca de um parente mais velho, de um avô, de uma avó? Habitualmente, terminava pela expressão “meu filho”, acentuando a característica de afago carinhoso da frase:             - Para tudo tem remédio, meu filho.             Entendíamos que era um consolo pelas dificuldades que enfrentávamos e que só o sábio tempo saberia cicatrizar as marcas das feridas que, aos olhos de hoje, nos trazem um sorriso condescendente: a bola furada, a bicicleta batida, a viagem perdida.             A época atual, marcada por uma forte ideologia bitologizante, quer transformar esse carinho em verdade científica. Tomando a sério a expressão “para tudo tem remédio”, querem nos levar a concluir que todo problema é doença, pois é doença aquilo que se trata com remédio.             Surgem livrinhos para ensinar as pessoas a se autodiagnosticar. São amplamente difundidos em serviços de saúde. Ensinam, por exemplo, a detectar a depressão. Trazem uma li…