segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Lou Marinoff...Entrevista...



Leia um trecho de sua entrevista à Tania Menai, em julho de 2005.

Filosofia de consultório
O autor Lou Marinoff diz que a ciência deixou as pessoas mimadas e sugere o pensamento filosófico como alternativa às drogas no combate de problemas psicológicos

Por Tania Menai, de Nova York

Antes de engolir uma pílula para acalmar os nervos, olhe no espelho e pergunte-se: "Por que existo?", "Afinal, o que é correto?". Filosofar em plena crise pode parecer coisa de louco, mas filósofos acreditam que esse é o primeiro passo para resolver nossos problemas e avaliar o que realmente queremos da vida. Para eles, saber usar idéias pensadas e repensadas por milênios pode ser o melhor remédio para os grandes dilemas atuais - nenhum problema é novo, alguém já passou por ele. Por isso, cada vez mais pessoas estão deixando seus divãs freudianos e buscando respostas de filósofos que as guiem pelos ensinamentos de Aristóteles, Maimônedes ou Platão. Autor do best seller mundial Mais Platão, Menos Prozac e do recém-lançado Pergunte a Platão, o americano Lou Marinoff, 53 anos, tornou-se o papa do assunto. De licença da Faculdade da Cidade de Nova York, ele atende pacientes em seu consultório e viaja o mundo dando palestras. Seu objetivo é trazer de volta uma sabedoria esquecida pelo homem - e da qual ele precisa.

Por que pessoas estão buscando cada vez mais a prática filosófica?Uma orientação filosófica é algo que desapareceu da nossa cultura, mas certamente é necessária. Quando comecei a prover este serviço, eu estava respondendo a uma demanda. Outros filósofos já faziam isso nos EUA, na América Latina e em Israel. As pessoas sabem que está faltando filosofia em suas vidas. O mundo é um lugar muito conturbado - e está cada vez mais volátil, instável, complicado, perigoso, e também mais próspero. Então as pessoas precisam de mais recursos para administrar o que acontece ao seu redor. Elas estão se voltando para a filosofia por estarem desesperadas e não terem mais para onde se voltar.

O que há de ruim na busca de soluções rápidas ou até imediatas, como o uso de remédios, para problemas emocionais?
No século 20, a ciência e a tecnologia mudaram radicalmente as nossas vidas em termos de transporte, medicação, comunicação. A desvantagem de tudo isso é que as pessoas tornaram-se muito dependentes de recursos fora delas mesmas. Elas acham que as respostas para seus problemas chegarão de alguma fonte externa - e que a ciência e a tecnologia vão resolver tudo. Imaginam que haja uma pílula que resolva problemas de relacionamento, uma para isso, outra para aquilo. Isso não faz sentido. Devemos nos fortalecer e desenvolver nossas fontes internas. E é aí que a filosofia pode ajudar. Não diagnosticamos ninguém, não receitamos remédios. Respeito a ciência, mas ela não responde a todas as perguntas e problemas. No mundo ocidental, o excesso de ciência e tecnologia tornaram as pessoas muito mimadas, acostumadas a soluções imediatas. Mas, quando temos de buscar um potencial interno, a filosofia pode ajudar muito mais do que a medicação.

E como aplicar a filosofia em nossas vidas?
As pessoas nunca vão chegar às mesmas respostas - mas com monitoramento e incentivo, você pode começar a pensar por você. Dependendo do problema do paciente, podemos recorrer à teoria da obrigação de Immanuel Kant ou à idéia de Aristóteles da busca de razão e moderação. Podemos também falar sobre como lidar com a morte, segundo o filósofo Soren Kierkegaard. Para os que reclamam que não são reconhecidos pelo bom trabalho, eu digo que querer reconhecimento é natural do ser humano. Já ficar remoendo o assunto não traz nada além de infelicidade. O que vale no final é um trabalho bem-feito e a sua satisfação pessoal - não fazer melhor do que o outro. E mais, sem dúvida nenhuma, a melhor maneira de preencher vazios em sua vida é ajudar os outros.

Que tipos de pessoas buscam a sua ajuda?
Estudantes, donas de casa, profissionais com carreiras estabelecidas, presidentes de empresas, celebridades, gente que saiu de problemas como alcoolismo, gente de todas as idades. Essa variedade mostra que todos têm um filósofo dentro de si.

Cada vez mais pessoas são tachadas de doentes mentais, por apresentarem esta ou aquela característica. Como evitar diagnósticos falsos?
Nos EUA essa onda está tomando proporções epidêmicas. Psicólogos sentem-se na obrigação de diagnosticar os pacientes para que sejam pagos pelos seguros-saúde. Se não houver um diagnóstico, eles não recebem. O sistema está corrompido. Então, hoje, cada um deve assumir a responsabilidade por sua própria saúde. Isso significa buscar uma segunda ou terceira opinião. E, no final, depende do paciente buscar o melhor tratamento ou a pessoa na qual ele confia.

Você aponta ainda um outro problema - a transformação do paciente em vítima. O que isso quer dizer?
Nos últimos anos, a tendência tem sido gratificar as pessoas por serem vítimas. Quando se premia alguém por ser vítima, ganha-se o paciente - ele acaba sendo condicionado a comportar-se como vítima. Isso lhe dá uma recompensa imediata. Mas lhe tira o poder de ser ele mesmo e conquistar algo por seus próprios méritos.

Você diz que não é diplomático. Por quê?
Falo o que penso e tenho um grande interesse em saber o que é verdade. Não que eu sempre conheça a verdade, mas acredito que como filósofos temos o dever de ser verdadeiros. Às vezes é nossa responsabilidade falar coisas que outros têm medo de dizer, ou até de pensar. Por isso, filósofos são pessoas que se envolvem em problemas.

Você uma vez mencionou a expressão "grande bem"? O que é isso?
É a forma de achar a sua excelência. Para que você está aqui? Qual o seu propósito na vida? E o que você faz para sentir que está realmente vivo? Para um atleta, é executar seu esporte com sucesso e se sentir bem com isso. E, segundo Aristóteles, todos, sem exceção, têm alguma excelência, talento para alguma coisa. É preciso buscar essa excelência, desenvolvê-la e - aí sim - a pessoa poderá sentir-se satisfeita consigo mesma. Mas não vivemos sozinhos - há de haver um "grande bem" para a sociedade. É preciso saber o que é o melhor para as famílias e sociedades, não apenas para cada indivíduo. O ser humano é um animal complicado.


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